O agronegócio brasileiro, embora consolide sua posição como motor da economia nacional, ao responder por cerca de 25% do PIB, enfrenta um cenário de “teste de resiliência” sem precedentes. A complexidade do momento atual deriva de uma combinação de dependência externa, instabilidade financeira e choques geopolíticos globais.
A maior fragilidade do setor reside em sua extrema dependência de fertilizantes importados. O Brasil compra do exterior cerca de 85% de todo o fertilizante que consome, totalizando 45 milhões de toneladas anuais. Os principais suprimentos provêm da Rússia, do Canadá, de Marrocos, da Arábia Saudita e da China.
O governo russo controla cerca de 40% do comércio global de fertilizantes e 25% da produção mundial de nitrato de amónio. Recentemente, a suspensão temporária das exportações russas deste insumo (até abril) para abastecer o próprio plantio de primavera gerou riscos de desabastecimento e volatilidade de preços no Brasil.
Conflitos no Médio Oriente (como a guerra envolvendo o Irã) e no Leste Europeu ameaçam as rotas marítimas, elevam os custos de frete e colocam em causa o cumprimento dos prazos fixos de plantio no Brasil, que dependem da chegada das chuvas em setembro.
Apesar do crescimento de 11,7% na agropecuária no ano passado, os segmentos específicos da cadeia — principalmente os produtores de grãos — vivem um “grande ajuste” financeiro. O setor enfrenta uma combinação de altos custos de produção (fertilizantes e combustíveis), quedas nos lucros devido às supersafras e uma subida abrupta nas taxas de juro.
O mercado financeiro, por meio de Fiagros (cujo património líquido saltou de R$ 10 mil milhões em 2022 para R$ 38 mil milhões em 2026) e CRAs, passou a irrigar o setor, reduzindo a dependência do Plano Safra. No entanto, a atual crise de margens tem levado a um recorde de pedidos de recuperação judicial.
Num cenário de choque nos preços do petróleo, o Brasil apresenta uma vantagem competitiva robusta na bioenergia. Graças ao Proálcool e à tecnologia de motores flex, o país possui hoje uma oferta excedente de etanol, o que impede riscos de desabastecimento e funciona como uma barreira contra choques petrolíferos externos. O etanol (de cana-de-açúcar e de milho) e o biodiesel são vistos como soluções estratégicas para a transição energética mundial, oferecendo alternativas renováveis e limpas aos combustíveis fósseis.
O agronegócio brasileiro encontra-se numa encruzilhada. Se, por um lado, a liderança em bioenergia oferece uma proteção vital contra crises energéticas , por outro, a dependência de fertilizantes e o endividamento sob juros elevados expõem os limites do modelo atual. A resiliência do “celeiro do mundo” dependerá da sua capacidade de gerir riscos geopolíticos, adotar uma abordagem de inteligência climática e estabilizar a saúde financeira dos produtores num ambiente global cada vez mais hostil.
