A cultura do cancelamento é uma boçalidade!

Uma das grandes baboseiras, entre tantas, da “cultura do cancelamento” é imaginar que trajetórias intelectuais são estáticas, herméticas. A campanha contra a memória de Monteiro Lobato, mais uma vez reacendida hoje na Folha de S.Paulo, é uma permanente prova disso: considerar que as ideias de alguém na juventude rotulam esse alguém por toda a vida.

Lobato, na maturidade, fez do liberalismo racista de Spencer que ele aprendeu com o avô, o Visconde de Tremembé (que por sinal, era mestiço), um boneco embolorado de palha na estante, o Visconde de Sabugosa. Reconheceu no Tio Barnabé a ancestralidade africana como elemento civilizador, elo simbolizado quando Barnabé presenteou o rinoceronte ugandês Quindim com um atabaque, registrando o elo de pertencimento cultural com a africanidade abrasileirada.

Quindim, representação antropomorfizada da África, defendeu o Brasil dos interesses estrangeiros em “O Poço do Visconde”, com bravura e perspicácia. Quindim é a representação do estrangeiro que se abrasileira e, por aqui, passa a defender a pátria adotada. Anastácia, da voz reivindicatória do povo. Barnabé, do saber popular.

O real interesse na censura da obra de Monteiro Lobato, proposta hoje mais uma vez em artigo de repercussão nacional, não é enterrar “Negrinha” e “O Presidente Negro”, obras de sua juventude que servem como retrato das deploráveis ideias spencerianas hegemônicas nas duas primeiras décadas do século XX (que contribuíram decisivamente para a Primeira Guerra Mundial, na perspectiva de que as “raças” mais aptas à dinâmica capitalista se sobrepujariam, extinguindo as demais!).

O real intuito do cancelamento de Lobato é tirar das mãos das crianças e adolescentes, o quanto antes, “O Poço do Visconde” e “O Escândalo do Petróleo”, essas duas últimas, obras verdadeiramente “perigosas”.

Lucas Cardoso Alvares é jornalista, professor das faculdades de Jornalismo e Propaganda e Propaganda da Universidade Estácio de Sá, doutor (2019) em Memória Social pelo Programa de Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e diretor cultural do Instituto da Brasilidade.

2 COMENTÁRIOS

  1. Concordo. Essa mania idiota que se estabececeu é, acima de tudo, uma marca registrada da ignorância.

  2. A luta identitária em si é legítima. O Grande Problema são essas franjas ao mesmo tempo radicais e sem a mínima noção da história, nisso de julgar a pessoa que viveu em outra realidade e outro conjunto de regras fixadas e aceitas pela moral da época, com a mente de hoje. Na cabeça deles não se salva ninguém. Até Chico Buarque foi taxado de racista e adúltero (sic) por vários lacradores. São pessoas ao redor das quais giram uns 9 planetas ao redor de seus umbigos, que creem ser o centro do Universo.

    Lá pelos anos 1990 e 2000, Içami Tiba falava dos filhos criados sem nenhum limite, aos quais ele chamou de “parafusos de geleia”. Pois bem, eles cresceram e viraram “imperadores” histriônicos que cancelam a tudo e a todos. Quem acha que exagero, essas franjas infanto-radicais se voltaram contra as estátuas do Padre Antônio Vieira, Churchill e vários outros. De fato, eles prejudicam a verdadeira luta contra o feminicídio, o racismo etc…

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