Chamou atenção nas mais de uma centena de ordens executivas assinadas por Trump nas primeiras horas de seu novo governo o fato de a maioria esmagadora estar voltada para a questão de imigração ilegal e segurança nas fronteiras. Sobre comércio exterior apenas algumas promessas vagas contra México e Canadá, concretizadas por uma sobretaxa de 25% a ser aplicada a partir de 1° de fevereiro e suspensa por um mês e, nos últimos dias, uma sobretaxa de 10% sobres as importações da China. Sobre o outro grande problema – a inflação – que, ao lado da questão da imigração ilegal, provavelmente garantiu a vitória de Trump nas eleições de novembro último, nenhuma palavra.
Tudo indica que toda a pirotecnia que o governo está fazendo em torno da questão da imigração ilegal e da segurança nas fronteiras, ao colocar no mesmo balaio imigrantes ilegais, gangues e traficantes de drogas, está sendo usada para criar uma cortina de fumaça em torno de um problema muito mais importante, sensível e difícil de resolver, que é a inflação.
A bem da verdade, o governo Biden foi bem-sucedido no combate à inflação, que baixou de 9% em meados de 2022 para a casa dos 2% nas vésperas da eleição em novembro último. A questão é que inflação mais baixa não é sinônimo de queda nos preços; se a inflação cai, os preços apenas se estabilizam no patamar onde estiverem. Para ter queda nos preços seria preciso uma brutal recessão ou tremendo choque de oferta. Nem uma coisa, nem outra acontecerão agora. O problema, e isso foi fatal para Biden, é que para a maioria dos eleitores os preços estão, em média, 25% mais caros comparativamente a 2019, no período pré-pandemia da COVID-19 e não vão baixar. A batata quente está, agora, nas mãos de Trump que não tem muito o que fazer a respeito e, pelo jeito, nem está preocupado com isso.
Ao contrário, grande parte das medidas propostas por Trump tem alto potencial para elevar a inflação. Trump tem dito que quem vai pagar as novas tarifas que pretende impor aos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos são os exportadores. Não é verdade. Quem paga a tarifa de importação é o importador, ao fazer o desembaraço da mercadoria na alfândega. Difícil imaginar de onde Trump tirou essa ideia de que as tarifas seriam pagas pelos governos estrangeiros.
Se Trump de fato elevar as tarifas de importação de forma generalizada, os importadores irão repassar o aumento de custo para o comprador final do produto, a não ser que o país entre em recessão. Nesse caso, o importador teria que reduzir suas margens de lucro, que se forem muito apertadas poderiam inviabilizar a importação. Em condições normais, o que ocorre é as tarifas serem passadas integralmente para o preço final das mercadorias importadas. Aliás, é exatamente por isso que a tarifa beneficia o produtor local que se torna mais competitivo. Não fosse por isso nem faria muito sentido aplicar uma tarifa.
É certo que os exportadores, caso o aumento de tarifa não fosse exagerado poderiam também ajustar seu preços para se manterem competitivos no mercado norte-americano. Nesse caso, em parte, Trump teria razão. Mas certamente isso não ocorreria de forma generalizada e dependeria da magnitude do aumento da tarifa. Com 10%, talvez; com 60%, impossível.
A outra medida com potencial inflacionário é a caça aos imigrantes ilegais iniciada pelo novo governo. Em alguns setores, como a colheita de frutas e outros trabalhos braçais nas fazendas, frigoríficos, restaurantes, hotéis, empresas de limpeza, os trabalhadores imigrantes, muitos indocumentados, representam, em algumas localidades, até 70% da mão de obra. Como se tem visto em reportagens recentes, só a ameaça de deportação já levou ao fechamento temporário de vários negócios, pois os trabalhadores imigrantes estão com medo de sair de casa. Se tal ameaça se concretizar na proporção prometida por Trump é praticamente certo que ou haverá redução na oferta desses bens e serviços produzidos com mão de obra imigrante ou as empresas terão que elevar os salários para atrair trabalhadores americanos para essas tarefas que até então se recusavam a fazer. Em um caso ou no outro, o resultado seria o mesmo: aumento de preços e inflação.
O FED, o banco central dos Estados Unidos, já acendeu a luz de alerta e interrompeu a trajetória de queda na taxa de juros, mantendo-a na faixa de 4,25% a 4,50%, apesar das pressões de Trump que queria que o juro baixasse e da expectativa que havia antes de Trump assumir de que os juros seguiriam caindo.