As “Duas Sessões” de março de 2026, compostas pelas reuniões anuais do legislativo e do órgão consultivo da China – a Assembleia Popular Nacional e a Conferência Consultiva do Povo Chinês – estabeleceram um roteiro pragmático para que o país enfrente desafios globais e domésticos. Sob a liderança do Primeiro-Ministro Li Qiang, o governo apresentou o plano de trabalho para 2026 e o esboço do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), priorizando a resiliência econômica, a autossuficiência tecnológica e a estabilidade regional.
Pela primeira vez desde 2023, a China reajustou suas expectativas de crescimento, adotando uma postura considerada menos ambiciosa, mas mais focada na estabilidade.
- Crescimento do PIB: A meta foi fixada entre 4,5% e 5% para 2026. Para o período de 2026-2030, o objetivo é manter o crescimento em uma “faixa apropriada”.
- Emprego e Inflação: O governo planeja criar 12 milhões de novos empregos urbanos e manter o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) em torno de 2%.
- Déficit Fiscal: A meta de déficit foi estabelecida em 4% do PIB, com o Ministro da Fazenda, Lan Foan, prometendo uma política fiscal proativa para apoiar o desenvolvimento de alta qualidade.
Um pilar central das sessões foi a busca por “autossuficiência tecnológica de alto nível” para reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras.
- Investimento em P&D: O orçamento para Pesquisa e Desenvolvimento deve crescer 10% em 2026 e pelo menos 7% anualmente nos próximos cinco anos.
- Setores de Fronteira: O foco recai sobre inteligência artificial (IA), tecnologia quântica, interfaces cérebro-computador, tecnologia 6G e a rede de navegação BeiDou. A expectativa é de que o setor de IA na China atinja 10 trilhões de yuans até 2030.
- Mercado de Capitais: Regras de listagem mais flexíveis serão introduzidas no conselho ChiNext de Shenzhen para facilitar o financiamento de empresas tecnológicas inovadoras.
Para impulsionar a demanda interna, as autoridades chinesas miram no potencial inexplorado de áreas menos urbanizadas e no fortalecimento da confiança dos investidores.
- Consumo Interno: O Ministro do Comércio, Wang Wentao, destacou que as cidades de terceira e quarta linha, que representam 70% da população, são essenciais para destravar o consumo. O setor de serviços chinês deve atingir 100 trilhões de yuans até 2030.
- Estabilização do Mercado: Wu Qing, presidente da Comissão Reguladora de Valores da China (CSRC), anunciou um mecanismo de estabilização do mercado “com características chinesas” para combater fraudes e manipulações, visando tornar os ativos chineses mais atraentes para investidores globais.
A retórica das “Duas Sessões” também refletiu as tensões internacionais e a determinação política de Pequim.
- Defesa: O orçamento militar terá um aumento de 7% (totalizando aproximadamente 1,91 trilhões de yuans), o crescimento mais lento desde 2021. Li Qiang reiterou a liderança absoluta do Partido sobre as forças armadas e a continuidade da “retificação política” (anticorrupção) no setor.
- Taiwan e Hong Kong: O governo afirmou que reprimirá “resolutamente” forças separatistas em prol da independência de Taiwan. Em relação a Hong Kong, o Banco Central prometeu consolidar sua posição como centro financeiro internacional.
- Comércio Exterior: Apesar das críticas ao protecionismo global, a China registrou um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão em 2025 e prometeu manter o mercado aberto às empresas estrangeiras.
Conclusão: As “Duas Sessões” de 2026 revelam uma China consciente de seus desafios internos — como o desequilíbrio entre oferta e demanda e os riscos em setores-chave —, mas decidida a utilizar a inovação tecnológica e a expansão do mercado interno como escudos contra as incertezas globais.
