Trump não é propriamente um estadista, mas um homem de negócios que fez fortuna operando nos limites da legalidade, o que lhe rendeu grande fortuna, mas também algumas centenas de processos. Nesse sentido não é diferente das outras grandes fortunas construídas nos Estados Unidos, desde a época dos “barões ladrões” do século 19, não fosse o fato de que pretende reorganizar o mundo e não apenas os Estados Unidos segundo a mesma lógica que sempre orientou seus negócios privados.
Conforme afirmou a revista The Economist (27/02/2025), “O governo [Trump] é um redemoinho de ideias e egos, mas sua turma concorda em uma coisa: sob a estrutura de regras e alianças pós-1945, os americanos foram sugados para o comércio injusto e pagaram por guerras estrangeiras. Trump acha que pode perseguir o interesse nacional de forma mais eficaz por meio de transações hiperativas. Tudo está em disputa: território, tecnologia, minerais e muito mais. “Toda a minha vida é negócios”, explicou ele em 24 de fevereiro, após conversas sobre a Ucrânia com Emmanuel Macron, o presidente francês. (…) Pechinchar a economia vai muito além das tarifas para abraçar uma fusão de poder estatal e negócios. Isso sinaliza um recuo da ideia de que o comércio é melhor governado por regras neutras. As discussões bilaterais entre os Estados Unidos e a Rússia, Arábia Saudita, executivos taiwaneses e Ucrânia incluem produção de petróleo, contratos de construção, sanções, fábricas da Intel, o uso do serviço de satélite Starlink de Elon Musk e um torneio de golfe no deserto.”
Isso significa substituir a atual ordem global, baseada em regras (feitas pelos Estados Unidos para seu próprio benefício) por uma nova ordem baseada em negociações, caso a caso, nas quais o uso da força, das ameaças e da chantagem, quando for preciso, não deve ser descartado. No universo mental de Donald Trump há apenas vencedores e perdedores e ele sempre vence, não importa o que e como. Como diria Quincas Borba, de Machado de Assis, “ao vencedor, as batatas”.
No caso do Canal do Panamá, por exemplo, as ameaças de Trump de tomar o canal de volta para os Estados Unidos à força levou a que a empresa de Hong Kong CK Hutchison que controla dois portos importantes nos dois lados do canal – o que levou Trump a afirmar que a China controlava o canal, que não tem nada a ver com os portos – a vender o controle acionário da empresa que opera 43 portos de contêineres em 23 países, incluindo dois portos no Panamá, para um consórcio liderado pelo fundo de investimentos americano Black Rock. Pelo acordo firmado, os novos controladores adquiriram 80% das ações da empresa por US$ 23 bilhões, o equivalente a 12 anos de seu faturamento. Se isso se tornar um padrão, os investidores chineses terão que repensar suas estratégias, e os países anfitriões serão forçados a fazer escolhas difíceis sobre quais investimentos eles aceitam – e quais eles rejeitam.
Sob a ordem atual, instituída ao final da II Guerra Mundial, o mundo experimentou uma certa estabilidade. Embora não tenha logrado superar as enormes diferenças entre países ricos e pobres e nem mesmo evitar as centenas de guerras que pipocaram pelo mundo nesse período, ao menos evitou que o mundo descambasse para uma Terceira Guerra Mundial. Conforme afirmou Rodrigo da Silva em artigo no Estadão (10/02/205) “A ordem internacional liberal foi projetada para evitar que conflitos globais devastadores se repetissem, e foi extremamente bem-sucedida nessa tarefa. Desde 1945, o mundo não experimenta um conflito militar envolvendo diretamente duas grandes nações.”
A atual ordem mundial valoriza as relações com aliados comprometidos com o capitalismo democrático (seja lá o que se entenda por isso), mesmo que mantendo alianças que tenham um custo para os consumidores americanos. É um sistema contrário à tomada do poder por meios considerados não legítimos, levando a observância do direito internacional e o respeito pelas fronteiras internacionais como um objetivo em si mesmo. Para Trump, tal sistema deu aos países menores e menos poderosos influência sobre os Estados Unidos, deixando os americanos pagarem uma parte maior da conta para defender os aliados e promover a sua prosperidade.
Embora isso não seja verdadeiro, dado que o grande beneficiário dessa ordem tenha sido principalmente os Estados Unidos, a começar pelo fato de que ao impor ao mundo o uso de sua moeda, o dólar americano, como moeda internacional adquiriu um poder de senhoriagem nunca visto na história dos Estados soberanos, que lhe permitiu, ao longo da últimas cinco décadas, depois do fim do padrão dólar-ouro, em 1971, manter enormes déficits comerciais com resto do mundo, absorvendo riqueza real produzida em outros países em troca de uma moeda cujo único custo era o de imprimi-la, o fato é que sob a ordem atual, baseada em regras, muitos países logram se desenvolver.
A começar pelos países da Europa, Japão, os chamados Tigres Asiáticos e mais recentemente, a China, todos se beneficiaram, de alguma forma, da ordem atual para alavancar seu desenvolvimento. Mesmo países subdesenvolvidos do chamado Sul Global, entre eles o Brasil, conseguiram atingir estágios de renda média alta embora tenham ficado presos na chamada “armadilha da renda média”. A criação de organizações internacionais baseadas no princípio de “um país, um voto” como no caso do Organização Mundial do Comércio (OMC) de fato deu aos países em desenvolvimento uma voz que nunca tiveram antes. O fato, por exemplo, de o PIB conjunto dos BRICS ser, hoje, maior que o do G7 é fruto dessa ordem que Trump quer destruir.
Mesmo na área de defesa, a ideia de que os Estados Unidos estejam pagando a maior parte da conta para defender os aliados não se sustenta. Com o fim da União Soviética, em 1991, e do regime socialista na Rússia, a Otan, a rigor, perdeu sua razão de existir, mas os Estados Unidos fizeram questão não só de mantê-la como, inclusive, de expandi-la para o Leste Europeu, o que acabou desaguando na Guerra na Ucrânia. Qual a razão para isso? Porque os Estados Unidos precisavam inventar um novo inimigo que justificasse a necessidade de manter operando a todo vapor seu complexo industrial-militar, bem como manter sua presença militar no mundo como forma de garantir sua hegemonia global.
Conforme observou Rodrigo da Silva no já mencionado artigo do Estadão, “Os ganhos que Washington alcança com as suas alianças militares não são pequenos, e é fácil justificar por que, antes da ascensão de Trump, essa tenha sido uma causa bipartidária por tantas décadas.” Ainda segundo autor, “Desde que foi criada, em 1949, a OTAN é a principal plataforma para os Estados Unidos projetarem o seu poder no mundo. Mas ela não é a única. Os Estados Unidos sustentam algo próximo de 750 bases militares em 80 países. Todo esse poderio militar não caiu do céu. Ele não foi construído porque Washington deseja proteger o mundo da ação dos homens maus de forma altruísta e desinteressada. Ele foi projetado por líderes americanos, democratas e republicanos, com amplo apoio popular e uma motivação bem fácil de capturar: essa estrutura é indispensável para os Estados Unidos ocuparem o papel de nação hegemônica na Terra – dominante na economia, na política, nas artes e na ciência. E é esse domínio que sustenta o modo de vida americano. No fim, 3,4% do PIB em gastos militares não parece um preço caro perto desse retorno (…) Se os Estados Unidos se retirassem da OTAN, poupariam, com o financiamento da aliança, algo próximo de US$ 500 milhões por ano (0,05% do seu orçamento militar). Mas o Pentágono arriscaria perder o acesso a inúmeras instalações, portos, aeródromos e bases militares em toda a Europa, vitais para as operações dos Estados Unidos não apenas para frear o expansionismo dos seus adversários, como monitorar o Oriente Médio. A quem interessa o desmantelamento disso tudo? Aos mesmos países que sonham com um isolamento dos Estados Unidos e um enfraquecimento da sua relação com os seus aliados, envolvidos em ameaças de anexação e guerra tarifária: a Rússia e a China.”
É fato que a ordem atual é considerada obsoleta até mesmo pelos países em desenvolvimento, entre eles a China e o Brasil, mas mesmos esses países são cuidadosos quando falam em mudanças no sistema, preferindo falar em reformas na ordem atual do que em substituição por uma nova ordem que ninguém sabe exatamente o que seria. Sob a nova ordem, imaginada por Trump, passa a valer a velha máxima de que “os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”, conforme famosa passagem da obra de Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso.
Além de trazer uma instabilidade sem precedentes sobre o sistema internacional, transformando a indústria bélica no carro-chefe da economia global, essa nova ordem tenderá a aprofundar o fosso entre países ricos e países pobres, condenando bilhões de pessoas a uma vida miserável. O corte da ajuda humanitária, bem como a saída dos Estados Unidos de organizações multilaterais como a OMS e o Acordo de Paris terão consequências concretas que poderão ser contabilizadas no futuro em termos de milhões de vidas perdidas.
A ideia aparente de Trump de transformar as relações internacionais em um jogo entre grandes potências não vai funcionar pelo simples fato de que os Estados Unidos, ao contrário do que ocorreu ao final da Segunda Guerra, não têm mais o poder econômico, militar e muito menos moral para impor qualquer solução que o mantenham no topo da cadeia de poder mundial, ditando regras para o resto do mundo, como Trump aparentemente pretende. A política de grandes potências já levou o mundo a duas guerras mundiais e, como diz o ditado, “o cúmulo da idiotice é fazer repetidamente as mesmas coisas, esperando resultado diferente”. Mesmo os países em desenvolvimento, ainda que não dispondo de poder militar com que possam confrontar os Estados Unidos, estão muito menos dependentes da economia norte-americana e do sistema financeiro global capitaneado pelos bancos e fundos de investimento americanos. O surgimento de novos agrupamentos internacionais, como o BRICS, sem a participação dos Estados Unidos, mostra que uma outra ordem internacional não submetida aos ditames dos Estados Unidos é possível.