Com a entrada em vigor das tarifas de 25% contra a China e o Canadá e os 10% adicionais contra a China sobre os 10% já anunciados há um mês, todos os países afetados anunciaram retaliações contra os Estados Unidos. O Canadá respondeu com planos de rapidamente impor 25% de tarifas sobre aproximadamente US$ 100 bilhões de importações dos Estados Unidos. A China anunciou tarifas retaliatórias contra a importação de alimentos e produtos agrícolas e outras medidas contra empresas americanas e, além disso, entrou com uma reclamação formal na Organização Mundial do Comércio.
No caso do Canadá, o Primeiro Ministro Justin Trudeau anunciou que as tarifas serão aplicadas em duas ondas. A primeira onda tem como alvo importações de US$ 20 bilhões em bens, como bebidas alcoólicas, vestuário e eletrodomésticos produzidos em estados republicanos. A segunda onda, de US$ 90 bilhões, irá entrar em vigor em três semanas.
No caso da China, as medidas principais são a imposição de tarifas extras de 15% sobre carne de frango, trigo, milho e algodão e 10% sobre sorgo, soja, carne de porco, carne bovina, frutos do mar, vegetais e laticínios. Essas medidas estão programadas para entrar em vigor no dia 10 de março. Além disso o governo chinês, colocou 15 empresas americanas na lista de controle de exportação, o que na prática impede que empresas chinesas exportem para essas empresas produtos de uso dual (militar e civil). Entre elas está a Skydio, fabricante de drones e a star-up de Inteligência Artificial Shield AI, que fabrica sistemas de IA para drones. A China também incluiu 10 empresas americanas na lista de “empresas não-confiáveis”, o que as proíbe de importar ou exportar na China e fazer novos investimentos no país. Também proibiu a empresa de biotecnologia americana Ilumina de exportar sequenciamento de genes para a China. No total, 25 empresas norte-americanas, todas na área de alta tecnologia, foram afetadas.
As bolsas de valores, cujo desempenho Trump utiliza para avaliar o acerto e a popularidade de suas medidas econômicas, sofreram forte queda depois do anúncio da entrada em vigor das tarifas, praticamente zerando os ganhos ocorridos desde a eleição de Trump em novembro, revelando o receio que os mercados têm de que uma nova guerra tarifária possa levar à instabilidade econômica e até a uma nova recessão global.
O aumento de tarifas não necessariamente significa um aumento dos preços da mesma magnitude para os consumidores norte-americanos, pois tanto as empresas exportadoras afetadas podem absorver parte das tarifas reduzindo seus preços, quanto os importadores podem encontrar fornecedores com preços mais em conta, mas dependendo do produto e do quanto sua importação para os Estados Unidos depende de um único país, os efeitos podem ser significativos.
A título de exemplo, 80% dos abacates vendidos nos Estados Unidos vêm do México e 60% do xarope de bordo (maple syrup), produto onipresente nas mesas de café da manhã dos americanos, vem do Canadá. No ano passado, metade dos 16 milhões de veículos leves vendidos nos Estados Unidos eram importados do México ou do Canadá. As tarifas poderão aumentar os preços de veículos novos em até US$ 10 mil, dado que devido à integração profunda entre as unidades das montadoras localizadas nos dois lados das fronteiras, alguns carros cruzam as fronteiras em movimentos de ida e volta várias vezes até saírem prontos das linhas de montagem.
O uso generalizado de tarifas, por Trump, para supostamente forçar as empresas a voltar a produzir nos Estados Unidos parte de um pressuposto que era válido no século 19 ou mesmo em boa parte do século 20 de que os produtos são totalmente produzidos em determinado país e depois trocados com outro país na base das chamadas vantagens comparativas, conceito criado pelo economista inglês David Ricardo que usou o famoso exemplo da Inglaterra produzindo e exportando tecidos para Portugal e Portugal produzindo e exportando vinho para a Inglaterra.
Ocorre que nas economias modernas, nomeadamente desde o último quarto do século 20, com a expansão da chamada globalização produtiva, nenhum produto é fabricado totalmente em um único país, sobretudo os produtos industriais mais complexos. O que existe hoje são ecossistemas globais de produção para cada tipo especifico de produto. Nenhum país isoladamente, nem mesmo os Estados Unidos, poderiam, por exemplo, produzir um Iphone da Apple.
Ao elevar indiscriminadamente as tarifas, Trump pode estar dando um tiro no próprio pé. Ao invés de atrair fabricantes para os Estados Unidos pode forçar fabricantes norte-americanos a produzir em outros lugares deixando a indústria norte-americana em situação pior que a atual. O CEO da Ford, O CEO Jim Farley, reuniu-se com legisladores norte-americanos, após levantar preocupações de que tarifas de 25% sobre o México e o Canadá “abririam um buraco” na indústria automobilística dos EUA[1]. Da mesma forma, agricultores norte-americanos temem que a guerra tarifária com a China vá beneficiar os agricultores brasileiros. Conforme noticiou o South China Morning Post, de Hong Kong, a Associação Americana dos Produtores de Soja soltou um comunicado expressando sua frustação com a política tarifária de Trump. A associação observou que “Produtores estrangeiros de soja no Brasil e outros países estão esperando abundantes colheitas neste ano e estão preparados para atender a qualquer demanda decorrente de uma renovada guerra comercial EUA-China[2].
O fato é que, hoje, é praticamente impossível produzir qualquer coisa integralmente dentro de um único país ou utilizando apenas insumos nacionais. Destarte, a imposição de tarifas vai necessariamente impactar no custo final do produto e na competitividade da empresa que o produz. Quando um determinado produto é um insumo importante para a produção de outro produto, a tarifa sobre esse insumo pode resultar na desproteção do produto final que supostamente se pretendia proteger e pode vir a anular a vantagem que esse fabricante do produto final teria com a aplicação das tarifas adicionais. Um caso típico é o aço ou alumínio brasileiro exportado para os Estados Unidos. Como são insumos intermediários, as tarifas de 25% que o governo Trump está impondo sobre todas as importações de aço e alumínio irão prejudicar diretamente todas as empresas norte-americanas que utilizam esses insumos para produzir bens finais e vendê-los no mercado local ou exportá-los.
Dessa forma, ao atender às demandas de alguns setores específicos, como no caso do aço e do alumínio, Trump está na verdade beneficiando esses setores à custa das demais empresas a jusante da cadeia produtiva que serão obrigadas a comprar o aço ou o alumínio de fornecedores locais por um preço mais elevado do que o que pagavam pelo mesmo produto importado. Se o objetivo de Trump ao fazer isso é apenas retribuir o apoio recebido nas eleições, tudo bem, mas que fique claro que não beneficiará o conjunto da economia americana.
Não resta dúvida de que as tarifas são um instrumento poderoso de proteção das indústrias locais e, em certos casos, um forte indutor do Investimento Direto Estrangeiro visando contornar as barreiras tarifárias. Entretanto, o seu uso indiscriminado pode produzir o efeito contrário ao supostamente pretendido, como ficou evidente nas políticas de substituição de importação da América Latina vis-à-vis as políticas de promoção de exportações dos países do Leste da Ásia. Enquanto os chamados Tigres Asiáticos tornarem-se economias ricas importando insumos e exportando produtos acabados, os países da América Latina, no afã de produzir tudo viram suas economias serem estranguladas pela impossibilidade de construir toda a cadeia produtiva dentro de um único país.
[1] https://www.reuters.com/business/autos-transportation/ford-ceo-holds-meetings-with-lawmakers-after-raising-concerns-about-tariffs-2025-02-13/#:~:text=Ford%20CEO%20holds%20meetings%20with%20lawmakers%20after%20raising%20concerns%20about%20tariffs,-By%20David%20Shepardson&text=WASHINGTON%2C%20Feb%2012%20(Reuters),in%20the%20U.S.%20auto%20industry.
[2] https://www.scmp.com/print/news/china/diplomacy/article/3301413/why-renewed-us-china-trade-war-could-yield-bumper-harvest-brazilian-farmers