O Crepúsculo do Livre-Comércio: Entre o Protecionismo Americano e a Reabilitação da Política Industrial

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    Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a economia global foi moldada por um modelo internacionalista liderado pelos Estados Unidos, fundamentado na crença de que mercados abertos e regras multilaterais garantiriam a estabilidade e a prosperidade. Contudo, o cenário atual, em 2026, revela uma profunda subversão desta ordem. A agenda “América Primeiro” substituiu a cooperação pela imposição unilateral de tarifas e por investigações agressivas, fragmentando o comércio global e colocando em risco o crescimento das nações em desenvolvimento.

    O recente anúncio de investigações comerciais contra 60 economias mundiais, incluindo o Brasil, a China e a União Europeia, marca uma escalada significativa nas tensões globais. Fundamentadas na Seção 301 do Trade Act de 1974, estas investigações visam determinar se práticas como o uso de “trabalho forçado” e a superprodução subsidiada pelo Estado conferem vantagem de custo artificial aos produtores estrangeiros.

    Para o governo americano, trata-se de um esforço necessário para “trazer de volta as cadeias de suprimento críticas” e proteger o emprego doméstico. No entanto, críticos apontam que estas medidas funcionam como barreiras protecionistas que ignoram a interdependência das cadeias produtivas modernas. O Brasil, especificamente, encontra-se num grupo de economias sob escrutínio que poderá enfrentar novas tarifas caso as consultas e audiências previstas para os próximos meses não resultem em acordos favoráveis aos interesses de Washington.

    A análise de especialistas, como a de Anne O. Krueger, sugere que esta abordagem tarifária tem sido contraproducente. Em vez de fortalecer a segurança nacional ou de reduzir o déficit comercial, as tarifas arbitrárias danificaram o sistema de comércio aberto, sem proporcionar os benefícios econômicos prometidos. Mais grave ainda é a retirada dos EUA de fóruns de cooperação e o ataque ao Estado de Direito internacional, o que enfraquece a coordenação em áreas vitais que vão desde a saúde global até o monitoramento climático.

    O colapso iminente da Organização Mundial do Comércio (OMC) é a face mais visível desta crise. Sem um sistema de regras estáveis e previsíveis, o custo da incerteza recai desproporcionalmente sobre os mais pobres. Estimativas indicam perdas agudas na exportação de até 43% em economias de baixa renda e uma redução permanente do PIB global, caso o multilateralismo seja totalmente substituído por blocos comerciais fechados e disputas bilaterais.

    No meio deste caos, surge uma mudança intelectual surpreendente nas instituições financeiras internacionais. O Banco Mundial, durante décadas o principal defensor da disciplina fiscal e da liberalização de mercado, reconheceu recentemente que a sua oposição histórica à política industrial foi um erro. O relatório “The East Asian Miracle” de 1993, que antes atribuía o sucesso de países como Coreia do Sul e Taiwan apenas ao livre mercado, é hoje revisto para admitir que a intervenção estatal deliberada — por meio de subsídios, proteção de produtores locais e crédito direcionado — foi, de facto, o motor do desenvolvimento.

    Esta admissão de que a teoria econômica é inseparável da geopolítica reflete uma nova realidade: as economias mais poderosas do mundo estão praticando políticas industriais de forma tão aberta que as organizações internacionais já não podem negá-las ao resto do mundo.

    O sistema de comércio global encontra-se numa encruzilhada. Por um lado, o unilateralismo agressivo dos EUA ameaça desmantelar décadas de progresso multilateral, impondo custos elevados por meio de investigações e tarifas muitas vezes infundadas. Por outro lado, o reconhecimento de que o Estado desempenha um papel ativo na moldagem da economia abre espaço para que países em desenvolvimento reconsiderem suas estratégias de crescimento.

    A restauração de um sistema comercial justo e estável não depende do regresso ao passado, mas de uma reforma significativa da OMC que a torne adequada à economia real de hoje. Sem normas partilhadas que desencorajem a discriminação arbitrária e permitam, simultaneamente, políticas de desenvolvimento legítimas, o risco é de uma fragmentação permanente que empobrecerá a todos.

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