Irã: Sobrevivência é Vitória Política

    Imagem: G1.globo.com

    O objetivo inicial da campanha militar, lançada em 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel, era claro: decapitar a liderança iraniana e forçar o colapso do regime. Embora ataques de precisão tenham eliminado figuras centrais — incluindo o próprio Líder Supremo nos primeiros dias — o sistema de poder de Teerã revelou-se menos dependente de indivíduos do que Washington supunha. A rápida ascensão de Mojtaba Khamenei e a manutenção da ordem interna sinalizaram que a estrutura clerical e militar permanece intacta. Para um regime que muitos consideravam à beira do abismo devido a crises econômicas prévias, o simples fato de ainda estarem governando após um mês de bombardeios intensos é vendido, internamente e externamente, como uma vitória histórica contra o imperialismo.

    O Irã transformou o Estreito de Ormuz de um ponto de estrangulamento geográfico em uma possível fonte de receita. Ao bloquear a passagem de navios de nações hostis e instituir um sistema de “pedágio” — cobrando cerca de US$ 2 milhões por embarcação — o regime criou uma fonte de receita que compensa, em parte, as perdas de infraestrutura. Enquanto o mundo lida com o petróleo a US$ 120 e o risco de recessão global, o Irã, com o auxílio logístico da China, continua a escoar sua produção por meio de frotas fantasmas. Essa dinâmica inverteu a lógica das sanções: quanto mais o conflito se prolonga, maior é o prêmio de risco no preço do barril, o que, ironicamente, acaba financiando o esforço de guerra da Guarda Revolucionária.

    A guerra eliminou qualquer vestígio de pluralismo político ou de ala moderada no Irã. O controle do Estado agora é absoluto e exercido pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Esta elite militar não apenas comanda os mísseis, mas também os conglomerados econômicos que gerem a produção e a venda do petróleo. O resultado é um Irã mais coeso e “blindado” contra pressões externas. A dependência crescente da China como único grande cliente comercial selou uma aliança estratégica que oferece ao Irã um guarda-chuva diplomático e tecnológico, tornando-o um ator ainda mais isolado do Ocidente, porém mais integrado ao bloco eurasiano.

    A administração Trump baseou-se na premissa de que o Irã cederia sob fogo intenso. Contudo, a ausência de uma invasão terrestre — que os EUA desejam evitar a todo custo — deixou o regime com espaço para respirar e contra-atacar. O uso de drones e mísseis balísticos contra alvos em Israel e bases americanas demonstrou que o Irã pode projetar poder mesmo sob cerco. Ao recuar das ameaças de bombardear locais civis e buscar agora uma “rampa de saída” diplomática, Donald Trump sinaliza fraqueza. O retorno à mesa de negociações em uma posição de desvantagem militar e econômica desmoraliza a estratégia de dissuasão americana e eleva o prestígio regional de Teerã.

    O risco imediato é que o Irã emerja deste conflito não apenas com sua ideologia intacta, mas também com uma nova doutrina militar validada. A percepção de que as sanções podem ser contornadas e que os bombardeios podem ser suportados pode levar o regime a acelerar seu programa nuclear como garantia final de sobrevivência. Além disso, a fragmentação da coalizão ocidental — com aliados europeus e árabes temerosos das consequências econômicas — deixa os EUA isolados em sua política para o Oriente Médio. O Irã de abril de 2026 é um estado mais agressivo, financeiramente resiliente e convencido de que pode enfrentar a maior potência do mundo e sobreviver para contar a história. Aliás, esta não é a primeira vez e, provavelmente, não será a última em que a ingerência dos Estados Unidos em assuntos internos de outros países, com o objetivo de alterar o status quo, provoca o efeito oposto, pois, como bem observou o primeiro-ministro inglês, para a irritação de Trump, “mudanças de regime não caem do céu”.

    Luís Antonio Paulino
    Luís Antônio Paulino é professor doutor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da equipe de colaboradores do portal “Bonifácio”.

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