Maracanã 70 anos, quando o poeta venceu o tribuno

O Maracanã e a Copa de 1950 eram a expressão de um Brasil que desejava se mostrar ao mundo com otimismo e confiança.

Há 70 anos, o dia em que o poeta venceu o tribuno. Em 16 de junho de 1950, inaugurava-se o Estádio Mário Filho, no bairro carioca do Maracanã (em Vila Isabel), contemplando a proposta de localização do vereador Ary Barroso, da UDN, que venceu o projeto do jovem e impetuoso edil Carlos Lacerda, também da UDN, seu colega de bancada, que defendia sua construção no longínquo bairro de Jacarepaguá. Ficou na História o embate entre essas duas figuras do Rio de Janeiro.

Compositor consagrado e vereador da UDN no Rio de Janeiro, Ary Barroso uniu-se ao jornalista Mário Filho para defender a construção do Maracanã perto do povo, contra a opinião do vereador Carlos Lacerda.

Ary Barroso já era o compositor consagrado mundialmente (foi único brasileiro destacado por um conselho de críticos do primeiro mundo entre os 100 maiores do século XX, com seu samba Aquarela do Brasil). Lacerda, um jovem e fogoso tribuno emergente, que viria a incendiar o País nos anos 1950 e 60, provocando o suicídio de um presidente da República, Getúlio Vargas (1954), e a queda de um governo, João Goulart (1964).     

O estádio do Maracanã, como ficou conhecido, até hoje é a maior praça do esporte bretão no mundo inteiro. Sua construção foi um desafio para a engenharia civil brasileira, com prazo de dois anos para concluir a obra. Terminada a Segunda Guerra Mundial, o Brasil foi escalado para patrocinar o renascimento do futebol. O País deveria ter sediado a copa de 1942, adiada por causa da guerra.

O presidente Getúlio Vargas e a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) queriam fazer o campeonato de 42 de qualquer forma, mas não foi possível. Os aliados não aceitavam a participação de integrantes do Eixo (Alemanha, Itália e Japão e seus aliados); O mesmo diziam os outros beligerantes. Só se dispuseram a participar países até então neutros: Espanha, Portugal Romênia e Noruega. Seria, na verdade, uma copa sul-americana. Ficou para 1946, mas também não aconteceu, devido aos efeitos da devastação da Europa; a ideia renasceu para 1950.

O jornalista Mário Filho ajudou a aportuguesar a terminologia de origem inglesa do futebol e defendeu a Copa de Mundo de 1950 e a construção do Maracanã.

O Maracanã seria o símbolo para o mostrar ao mundo a exuberância brasileira, país que se apresentava à comunidade internacional como vencedor da Guerra, fundador e primeiro presidente das Nações Unidas (Oswaldo Aranha).

O estádio nasceu em meio a uma grande polêmica na Câmara de Vereadores do então Distrito Federal. Ary Barroso era uma figura de grande projeção no futebol: primeiro locutor esportivo do rádio, também era o autor da terminologia brasileira do esporte, em parceria com o jornalista Mário Filho (irmão do dramaturgo Nelson Rodrigues), fundador e dono do Jornal dos Sports, outra sumidade do futebol. Seu antagonista, Lacerda, era o vereador mais vibrante da então chamada Gaiola de Ouro.

Ary Barroso e Mário Filho criaram toda a terminologia do futebol no Brasil. São deles palavras como excandeio (tiro de canto – atualmente grafada escanteio) para o antigo “corner”, centroavante, para center-fower, meio-campista no lugar de half, goleiro para goalkeeper, falta para foul, impedimento para offside, e assim por diante. A mais curiosa é a denominação do “zagueiro”, no lugar de back. Os dois diziam que “traseiro”, a tradução literal, não pegaria bem em português do Brasil. Então tiraram essa expressão do caçador de onça, no último recurso no ataque da fera, o zagaieiro (de azagaia, uma lança curta). Já gol e pênalti não tiveram tradução, apenas aportuguesaram a ortografia.      

A verve poderosa de Lacerda não conseguiu vencer a determinação do compositor Ary Barroso. Ele queria o estádio próximo à zona urbana da cidade, na linha do bonde, ao alcance do povão. Já o intelectual pensava num ímã para atrair a urbanização para uma região mais adequada ao crescimento do Rio. De fato, os esportes se encontraram em Jacarepaguá, décadas depois: ali estava o Autódromo (de fórmula 1) o grande complexo esportivo das Olimpíadas, o campo de golfe, sem contar a Hollywood brasileira, o Projac da rede Globo (Projeto Jacarepaguá), o maior complexo de artes cênicas da América do Sul. E mais: tem entre seus bairros a sofisticada Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes, refúgio dos artistas da tevê, desbancando Ipanema e Leblon, no Rio tradicional.

O Lacerda vereador, como os lacerdistas de hoje, também era contra a construção de estádios, mas foi derrotado pela ação de tribunos como Ary Barroso e de jornalistas como Mário Filho, defensores do futebol e do Maracanã.

O Maracanã é ainda um dos grandes orgulhos dos esportes no Brasil. Como escreve o responsável por sua modernização, o ex-ministro do Esporte, Aldo Rebelo, que organizou o mundial de 2014: “O Brasil perdeu a copa de 1950 na final para o Uruguai. Mas um ano depois o estádio seria o palco da grande final do primeiro torneio mundial de clubes, reconhecido pela FIFA, quando o Palmeiras conquistou o título ao empatar com a Juventus da Itália depois de ter vencido a primeira partida. O Maracanã testemunhou o milésimo gol de Pelé e nenhum estádio do mundo recebeu tantas vezes a magia dos dribles (outro vocábulo que Ari e Mário acolheram, nacionalizando para “dibre”) de Garrincha, dos passes de Didi e do futebol de Nílton Santos. Reformado para a copa de 2014, o majestoso estádio não viu pela segunda vez o Brasil ser campeão do mundo e serviu de palco para a vitória da Alemanha sobre a Argentina”.

Setentão, o Maracanã comemora suas sete décadas como parte ativa da grande luta sanitária do Brasil, acolhendo um hospital de campanha para o tratamento de contaminados pelo novo corona vírus da covid 19. Mais uma vitória do imponente Mário Filho.

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