Máfia das Caatingas

Um livro para sacudir o imaginário do mundo político de Alagoas: “Máfia das Caatingas”, do escritor e cineasta alagoano Jorge Oliveira, traz de volta ao cenário a brutalidade e o primitivismo da política nos rincões profundos do Brasil.

Máfia das Caatingas- Autor: Jorge Oliveira
Editora: Fundação Astrogildo Pereira
Ano: 2020
 

A única diferença dos tempos passados (ambos 1950 para cá) é que as questões de ódio e de fake News se resolviam na boca dos canos dos trabucos, em vez dos delicados teclados das redes sociais de hoje, tão cruéis e letais quanto as armas dos matadores do passado.

Nesse livro o autor recupera a vida e morte dos irmãos Tonho e Floro Novais, este o mais fantástico matador do Nordeste, um hábil atirador lá chamado de “pistoleiro”, que seria, no Sudeste, denominado “sniper”. O protagonista é membro do clã dos Novais, antagonista dos Oliveira. As duas famílias se exterminam numa sucessão de atentados, tocaias e duelos.

O tom das vinditas é dado por outra personagem, dona Guiomar, matriarca dos Novais, mãe de Floro e de Antônio (o Tonho), irmão mais moço. Esse menino, aos 15 anos, foi chamado pela mãe: “Tonho, meu “fio”, ‘tá vendo aquele homem ali?: ‘Tô sim, “maeinha”; e, passando-lhe um retrato, acrescenta: “Só jogue fora esta foto quando esse miserável cair morto a seus pés”. O alvo era Ezequiel Oliveira, chefe político da cidade de Olivença, mandante da morte de Ulisses Gomes Novais, marido de dona Guiomar, e seu amigo Mané Roberto, desfiando, então, a teia de mortes e terror. 

Jorge Oliveira, jornalista, escritor e cineasta revolve as entranhas da violência social nas caatingas de Alagoas.

A história central penetra nos usos e costumes da política de Alagoas, que constitui um sistema cultural que perpassa todo o Nordeste e, mais recentemente, implanta-se nos grandes centros do Sul e Sudeste, integrado por descendentes da migração dos anos 1950 em diante.

Introduzida nos antigos costumes do submundo antigo dos tempos do samba, a civilização dos funqueiros elevou o grau de violência e de organização, reproduzindo em seus extremos a ética e a violência do cangaço lendário. Jorge Oliveira traz à tona os seus primórdios quando as pendências políticas (e econômicas entre latifundiários) se desenvolviam com o chumbo das espingardas.

Assassinato de encomenda, crime político, vingança e lendas e versões difundidas pelo imaginário dos poetas cordelistas se entrelaçam nesta história. Uma das crônicas mais fantásticas, recuperadas pelo autor, conta o duelo entre Floro e o mandante da morte de seu pai, Ezequiel Oliveira, na feira de Poço da Cacimba, lugarejo remoto, escolhido pelos dois para o duelo mais esperado de Alagoas.

Além dos dois desafetos, estão na cena a feiticeira Dona Nezinha, que benzera e fechara o corpo de Ezequiel, que, com essas artimanhas protegidas pelo exu Tranca Rua, escapara milagrosamente de várias tentativas de assassinato. Do outro lado, padre Cirilo, o pároco da igrejinha de Nossa Senhora do Carmo, onde o pistoleiro rezou, encomendando a alma de sua vítima momentos antes do duelo. Rezar para a vítima antes do atentado é outro ritual da morte por contrato. Cenário perfeito para um livro de cordel, que até hoje é entoado pelos cantadores pelas feiras do nordeste inteiro.

Sem tirar o gosto do leitor pela história empolgante de Jorge Oliveira, é necessário dizer que o mais certeiro pistoleiro do Nordeste descarregou suas duas armas, o revólver Colt .45 chamado “Cabra Preta”, e a pistola automática “Salamanta”, quase à queima-roupa, e nenhuma bala acertou Ezequiel, que não respondia ao fogo, apenas pulava à sua frente. Debaixo de uma árvore, de terço na mão, Nezinha rezava aos demônios, reforçando o corpo fechado do freguês. Ezequiel errou quando deu as costas, perdendo o encantamento, e, com isto, levou a última bala, que lhe acertou a nádega. Floro ainda tentou esfaqueá-lo, mas foi impedido pelo padre, alegando que deveria respeitar como lugar sagrado a porta da igreja, onde se deu o enfrentamento. E assim Ezequiel sobreviveu, rengo por causa do tiro, para ser abatido anos depois por Tonho entre as barracas da Feira de Olivença.

Muitas mortes são contadas. Floro, desarmado, abatido implacavelmente por Bigodão, a tiros de mosquetão. O irmão Tonho completando o juramento do irmão, matando outros envolvidos na morte do pai e, mais ainda, os assassinos de Floro, que entraram na lista de seus jurados de morte.    

O livro é eletrizante. Seu conteúdo é um trabalho de grande valor literário, sustentado por uma pesquisa jornalística levada a efeito por um dos profissionais mais experientes e premiados do mercado da informação do País.

O pistoleiro tornou-se protagonista e celebridade da violência histórica que povoou o sertão nordestino.

Com dois prêmios Esso no currículo, Jorge Oliveira foi destacado repórter dos principais jornais brasileiros, como O Globo, Jornal do Brasil e do diário econômico Gazeta Mercantil. Integrou a nata do jornalismo até se reinventar cineasta e escritor. No cinema, com vários filmes, destaca-se “O Olhar de Nise”, com a vida da psiquiatra brasileira nascida em Alagoas Nise da Silveira, película premiada, que lhe valeu a escolha como homenageado a Brazilian Endowerment for the Arts (BEA), em Nova York. Na literatura publicou vários livros, valendo aqui registrar a obra que antecede “Máfia…”, o thriller político “Curral da Morte”, descrevendo em detalhes o tiroteio no plenário da Assembleia Legislativa de Alagoas, em Maceió, em 1957, que acabou com a morte de um deputado e outros seis parlamentares feridos à bala.

No livro, tudo encadeado, Jorge Oliveira mostra como numa radiografia as entranhas de um sistema político e de dominação econômica, que se inicia nos confins do Brasil e  chega até o Palácio do Catete, com Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, ambos não diretamente, mas de alguma forma, associados à organização de extermínio em Alagoas,  denominada Sindicato do Crime, na qual se podiam contratar pistoleiros para as mais diversas missões.

Descendo nas hierarquias, já em Alagoas,  aparecem figuras de grande relevo, como os então governadores Silvestre Péricles (Gois Monteiro, irmão do general que comandou as tropas vencedoras da Revolução de 1930 e foi ministro da Guerra dos presidentes Vargas e de Eurico Gaspar Dutra), Arnon de Melo, pai do ex-presidente e atual senador Fernando Collor, e Sebastião Marinho Muniz Falcão. Em 1964, ambos os senadores de partidos opostos, Arnon e Péricles, duelaram no plenário do Senado Federal. Nesse embate, errando o alvo, Melo matou com uma bala perdida (ou “achada”?) o senador José Kairala, do Acre. É a cena mais grotesca da história dos parlamentos brasileiros.

Máfia das Caatingas
Autor: Jorge Oliveira
Editora: Fundação Astrogildo Pereira
Ano: 2020
Cenário de uma civilização fecunda e criativa, a caatinga do Nordeste também produziu desajustes e violência.

Passando por presidentes, governadores, chefões, chefes, chefetes políticos e bagrinhos distritais, o livro mostra a anatomia das lutas políticas brasileiras, quando mais que ideologias ou posições programáticas, o que vale é o poder a qualquer custo. O leitor terá uma surpresa, tamanha a ação que sai das páginas. Uma leitura empolgante, sem fôlego. Ainda não foram marcados os lançamentos festivos, fora de Alagoas, mas o esperado “Máfia das Caatingas” é a primeira obra a chamar a atenção do mundo do livro neste ano de 2020.

A saga do pistoleiro Floro acaba com o protagonista crivado de balas. Ele não pôde  cumprir a promessa que fizera à mãe aos cinco anos de idade. Deixou a missão para seu irmão Tonho, que “concluiu” o vilão Ezequiel Oliveira e muitos outros, para orgulho de Dona Guiomar: “ Pois é meu “fio”, foi ali em frente, naquela feira, que vi Ezequiel pela última vez, antes de Tonho, o meu caçula”… Ela contou ao repórter. E assim cumpriu-se a lei dos sertões, como se diz naquelas bandas: vingança vingada.

 

Máfia das Caatingas

Autor: Jorge Oliveira

Editora: Fundação Astrogildo Pereira

Ano: 2020

1 COMENTÁRIO

  1. Resenha de um grande escritor feita por outro grande escritor!!!

    Deu todo o panorama e ainda assim manteve o interesse na leitura desse grande faroeste caboclo.

    Parabéns ao Portal pelo acerto do nome do resenhista e ao grande Severo pela lucidez de sempre.

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