Biografia de Pinheiro Machado, uma visão familiar do Condestável da República

O Condestável da República. Este era o título que se dava ao senador José Gomes Pinheiro Machado (PRRG-RS), que foi o político mais influente no período inicial da República, tido por aliados e adversários como o “fazedor de presidentes”, assim chamado pela força de suas articulações que, invariavelmente, levavam à escolha do novo ocupante do Palácio do Catete.

Lançado no ano passado, o livro sobre o senador (1851-1915) chega a Brasília. Não é uma biografia convencional. Editado pela L&PM, está nos comentários boca-a-boca de parlamentares e jornalistas da capital como obra oportuna neste momento nacional. Intitula-se O Senador Acaba de Morrer, referindo-se ao assassinato de Pinheiro Machado em 1915, pondo fim à sua carreira. O autor é o escritor José Antonio Gomes Pinheiro Machado, sobrinho-bisneto da personagem.

Na sua narrativa, o escritor produz uma obra sem precedentes, usando de sua intimidade intrínseca com o biografado, traz Pinheiro Machado para os dias atuais e o insere na sua própria história. Com autoridade de familiar, José Antônio (o escritor é conhecido como Pinheiro Machado, mas aqui embolaria a compreensão de quem é quem), mergulha profundamente na alma de seu personagem. Um exemplo é que Pinheiro nunca pensou se colocar como candidato ao governo. Certamente dessa explícita desambição viria uma parte de sua força. Seu grande antagonista, contra o qual se bateu nos palanques e parlamentos, foi nada menos que Ruy Barbosa.  A Águia de Haia, no entretanto, foi além de Pinheiro, pois candidatou-se duas vezes, sempre derrotado nas urnas.

Porém, era tão elevada essa polêmica entre Ruy e Pinheiro que, sem deixarem de ser contundentes, os debates e enfrentamentos entre os dois ficaram na História como disputas virulentas e espirituosas. Não obstante, eram companheiros de mesa. Ruy era comensal nos jantares na casa do senador gaúcho, no Morro da Graça, em que a mulher de Pinheiro, dona Nhãnhã (apelido caseiro de dona Benedita Brazilina) mandava preparar seu doce de batata-doce especialmente para o senador baiano. Nas refeições, os dois próceres bebiam do vinho Chateau d’Yquen da safra de 1898, a favorita dos dois parlamentares. Na crônica política da época, os dois eram apresentados como antagonistas ferozes. É verdade, mas nada que se compare ao baixo nível caracteriza a retórica os adversários, nestes tempos de “estética do ódio”.

Certamente o leitor nunca terá visto tamanha criatividade para contar uma história desta natureza. É um livro único. José Antônio Pinheiro Machado, autor consagrado, jornalista com passagem pelas maiores redações do Brasil, apresentador famoso de televisão (com seu personagem Anonymus Gourmet) , repórter que deu o furo mundial do fim da Guerra do Vietnam, cobrindo a conferência de Paz em Paris para os jornais  Folha da Manhã e Correio do Povo de Porto Alegre, traz agora, com sua alma de jornalista e o talento de escritor de texto limpo e veloz, um novo furo de reportagem. Não está abrindo um velho baú de reminiscências familiares, nem revisitando livros de História. Esse livro é uma verdadeira reportagem, em que o repórter viaja pela máquina do tempo, e se encontra com a personagem nas duas épocas: a do biografado e a do próprio autor. Além de tudo, a obra é bem-humorada. É um livro imperdível.

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